Nascida em 29 de julho de 1846, no Paço da Imperial Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Rio de Janeiro, D. Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga [de Bragança e Borbone-Sicilie] foi preparada desde os quatro anos de idade, quando morreu seu último irmão homem (varão), a desempenhar as funções inerentes ao alto encargo de princesa imperial, o que vale dizer, segundo os artigos 105, 106, 126 e 128 da Constituição Política do Império do Brasil, que ela seria a futura “imperatriz imperante”, quando morresse seu pai, D. Pedro II.
Três vezes regente do Império (1871-72; 1877-78; 1887-88), D. Isabel mostrou-se administradora conscienciosa e mulher de ação política particularmente voltada aos interesses dos menos favorecidos. Dentre os milhões que este termo abrigava no Brasil do século XIX, sociedade simultaneamente escravocrata e liberal, ela se preocupou particularmente com a sorte dos escravizados — afro-brasileiros ou africanos trazidos da África desde os tempos coloniais.
A República brasileira que nasceu no golpe militar de 15 de novembro de 1889 parece ter sido bem mais um amontoado de episódios tragicômicos do que uma “evolução” da política e da sociedade brasileiras, ao contrário do que narram livros escolares didáticos e paradidáticos. O maior alvo do republicanismo da década de 1880 foi justamente a futura D. Isabel I, comprometida com boa parte das reformas sociais que os abolicionistas propunham. Gilberto Freyre lembrava que Nabuco, ou Rebouças, ou Patrocinio, não propunham apenas a Abolição, legalmente constituída, mas um conjunto de reformas transabolicionistas, que garantissem a cidadania aos negros.
Em 05 de dezembro de 1891, D. Pedro II faleceu em Paris, no Hotel Bedford — sem jamais ter renunciado ou abdicado da Coroa brasileira à qual devotou sua vida desde os cinco anos de idade (1831); naquele momento, simultaneamente solene e funéreo, a Princesa Imperial D. Isabel foi reconhecida pelos conselheiros imperiais e demais nobres que a cercavam como “D. Isabel I, Imperatriz do Brasil”, motivo pelo qual nosso Instituto respeita e enaltece esse fato histórico. Nos trinta anos seguintes, ela devotou sua vida de exilada a rezar e trabalhar pela grandeza do Brasil e o conforto dos brasileiros, ainda que em campo de atuação enormemente restrito. D. Isabel foi uma personagem reconhecida pelo seu espírito nobilíssimo na sociedade parisiense de fins do XIX e princípios do XX — Madame la Comtesse d´Eu, como a tratavam os franceses, era a imperatriz do Brasil e todos o sabiam, do presidente da República Francesa ao mais comum dos habitantes da pequena Cidade de Eu, onde o castelo do século XVI abrigava a família imperial banida do território nacional brasileiro. Os depoimentos sobre a corte isabelina no exílio mostram que, como lembrou Assis Chateaubriand, ela pôde “reinar no exílio”, acima dos partidos, das facções, das rinhas. De outro lado, como lembrava o mesmo empresário do jornalismo, sem governar o Império abolido por oficiais do Exército em 1889, ela não pôde fazer quase nada pelos pobres do Brasil.
Em 14 de novembro de 1921, com 75 anos e já mortificada pela perda de dois filhos, a única brasileira que nos governou antes da Presidenta Dilma Rousseff cerrou para sempre seus olhos azuis e voltou à casa do Pai Eterno. Seus restos mortais somente vieram para cá em 1953; repousam, desde maio de 1971, no mausoléu imperial da catedral que ela ergueu: São Pedro de Alcântara, em Petrópolis.
Celebrar, pois, a memória daquela que o povo brasileiro apelidou de “Redentora” — redentora da História do Brasil e não “redentora dos escravizados”, numa visão descontextualizada — é iluminar um passado que insistiram em esquecer e que, no entanto, jamais desapareceu. O passado das lutas entre escravismo e liberalismo, abolicionismos republicano e monárquico, positivismo, socialismo e catolicismo social etc.
A identidade nacional é uma amálgama de sentimentos e sensações, mas também de ideias e ideais. Diariamente, nós revisitamos os “fundadores da nacionalidade” em nossos projetos sociais e políticos e nos alimentamos de esperança para que o futuro de nossos descendentes contenha um mínimo de paz, estabilidade e progresso.
Destarte, cultuar a memória da “Redentora” e de todos os abolicionistas, sem jamais deixar de fomentar pesquisa histórica sobre suas vidas e obras constitui, em nosso alvitre, descortinar um Brasil que clama pelo conhecimento.